Redução do teto no Farmácia Popular reconfigura dinâmica da indústria de fraldas geriátricas
Novo valor de referência de R$ 1,70 impulsiona ajustes produtivos, amplia concorrência e reforça o papel do programa na estrutura do mercado de personal care

A redução do valor de referência das fraldas geriátricas no Farmácia Popular de R$ 2,43 para R$ 1,70 por unidade, em vigor desde fevereiro de 2026, marca uma nova fase na relação entre política pública e indústria de personal care no Brasil. A medida, estabelecida pela Portaria GM/MS nº 8.407 e ajustada pela Portaria GM/MS nº 9.210, ocorre após a ampliação da gratuidade do produto em 2025 e em um cenário de crescimento relevante da demanda.
Desde então, o programa ampliou sua base de fornecedores e produtos. Segundo o Ministério da Saúde, o número de fabricantes passou de 71 para 83, enquanto a quantidade de itens disponíveis cresceu de 822 para 1.043, um avanço de 26%. O programa também já beneficiou mais de 27,3 milhões de pessoas, com presença em mais de 29 mil farmácias credenciadas e investimentos superiores a R$ 5,9 bilhões.
A ampliação do acesso às fraldas geriátricas em 2025 impulsionou a demanda e levou a indústria a adaptar rapidamente sua operação. O movimento incluiu desde negociações com fornecedores de matérias-primas até investimentos em capacidade produtiva e reorganização de portfólio.
Nesse contexto, fabricantes também passaram a desenvolver produtos mais alinhados às diretrizes do programa, buscando equilibrar competitividade, escala e viabilidade operacional dentro dos parâmetros estabelecidos.
Segundo Gustavo Junqueira, diretor de Marcas Próprias e Exportação da Eurofral, “houve ajustes produtivos e de portfólio em decorrência da ampliação do acesso e do crescimento da demanda em 2025. Observamos um aumento significativo na procura, impulsionado principalmente pelo programa Farmácia Popular, além do lançamento de novas marcas próprias desenvolvidas especificamente para atender às diretrizes e ao perfil de consumo do programa. Esse cenário exigiu adequações na capacidade produtiva, no planejamento de estoques e na estratégia de portfólio, com foco em garantir abastecimento, competitividade e sustentabilidade operacional”.
NOVO TETO IMPÕE REEQUILÍBRIO DA CADEIA E DIRECIONA ESTRATÉGIAS DA INDÚSTRIA
Com a entrada em vigor do novo teto, a indústria passou a operar em um ambiente de maior pressão sobre custos e margens. O valor de referência impacta não apenas a produção, mas toda a cadeia envolvida no fornecimento — incluindo logística, distribuição e varejo farmacêutico.
“O montante pago contempla toda uma cadeia de custos, que envolve desde a produção industrial, despesas operacionais, logística e frete, até os custos do varejo farmacêutico responsável pela dispensação ao consumidor final”, comenta Junqueira. “A redução do valor compromete o equilíbrio financeiro dessas etapas, podendo inviabilizar a continuidade do fornecimento nas condições atuais”.
Na visão de uma fonte da indústria, ouvida sob condição de anonimato, a adaptação ao novo cenário tende a direcionar o desenvolvimento de produtos compatíveis com o teto estabelecido, o que exige revisões técnicas e estratégicas por parte dos fabricantes.
A discussão também envolve o equilíbrio entre custo, qualidade e acesso. Para os fabricantes, o desafio está em manter padrões técnicos e desempenho dos produtos ao mesmo tempo em que se adequam às novas condições econômicas.
“A empresa avalia a redução do valor de referência no programa de forma negativa, pois entende que essa medida pode comprometer a qualidade dos produtos ofertados. Com a diminuição dos recursos disponíveis, há o risco de que a população deixe de receber itens com o mesmo padrão de qualidade anteriormente garantido, impactando diretamente a satisfação dos beneficiários e a efetividade do programa”, afirma Junqueira.
Com a mudança no valor de referência, fabricantes também avançaram na atualização de seus portfólios junto ao programa. Segundo fontes do setor, o retorno sobre os cadastros já foi repassado às empresas participantes, acompanhando a adaptação do mercado ao novo modelo.
Diante desse cenário, a evolução do programa tende a ser acompanhada de perto por indústria, varejo e fornecedores, à medida que o mercado busca se ajustar a uma nova lógica de preço, escala e competitividade.
A continuidade desse movimento deve reforçar o papel do Farmácia Popular como um dos principais vetores de desenvolvimento da categoria, ao mesmo tempo em que exige adaptação constante dos players para garantir eficiência operacional, diversidade de oferta e atendimento às demandas crescentes da população.



