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Crise paralisa fábricas e desafia o abastecimento de personal care na América Latina

Combinação de força maior, quebra de contratos e tensões geopolíticas ameaça a continuidade operacional de fabricantes de fraldas e absorventes na região

A escalada da guerra comercial entre Estados Unidos e China e as tensões com o Irã desencadearam uma ruptura no fornecimento global de polímero superabsorvente (SAP) que já chegou na América Latina. Pressionada pelo cenário geopolítico, a LG Chem, principal fornecedora mundial do insumo, declarou força maior e suspendeu contratos. O resultado é uma crise de abastecimento que afeta diretamente fabricantes de fraldas infantis, fraldas para incontinência e absorventes em toda a região, expondo a fragilidade de uma cadeia que opera com margens estreitas de segurança.

Os efeitos são imediatos e concretos. Um dos fabricantes de produtos do setor já registra paralisação de linhas de produção por falta do insumo. Distribuidores relevantes operam sem estoque, e mercados menores, como o boliviano, enfrentam desabastecimento direto. Outros fornecedores globais aproveitaram o momento para impor revisões unilaterais de preço, mesmo em contratos vigentes — aprofundando a insegurança jurídica nas relações comerciais do setor.

ESCASSEZ DE SAP FORÇA ADAPTAÇÕES EM TODA A CADEIA PRODUTIVA

Diante da escassez, fabricantes e fornecedores passaram a aceitar ajustes que, em condições normais, seriam recusados. A redução do teor de metaloceno nas receitas de filmes — insumo que já vinha escasso desde o início da guerra na Ucrânia e cuja situação se agravou — é um exemplo concreto. A medida exige adaptações nas linhas de conversão. As máquinas precisam operar com temperatura e força de selagem mais elevadas para compensar a mudança na especificação.

“A falta de um item na cadeia afeta a cadeia por completo. O que estamos vendo é a flexibilização de especificações. Pela eminente falta de matéria prima os clientes estão aceitando por exemplo colocar menos metaloceno nas receitas atuais”, afirma Andrea Soyama, Sales Executive do setor. Segundo ela, a lição da pandemia foi justamente essa capacidade de adaptação, “aprendemos com o COVID a flexibilizar tanto em especificação quanto em preço”, diz.

O ambiente comercial reflete a instabilidade. “O mercado está nervoso, as empresas não querem se comprometer”, afirma Soyama. Segundo a executiva, fornecedores da Ásia e do Oriente Médio operam sem oferecer cotações firmes, e os mecanismos de formação de preço estão sob revisão constante.

A resposta das empresas tem sido ampliar estoques e negociar prazos de pagamento mais longos — estratégia que protege o fluxo operacional no curto prazo, mas pressiona o capital de giro. Paralelamente, cresce a busca por fornecedores locais como alternativa para garantir abastecimento mínimo.

DEPENDÊNCIA CONCENTRADA E MUDANÇA ESTRUTURAL

A crise expõe uma fragilidade conhecida, mas pouco endereçada: a concentração do fornecimento global de SAP em poucos players. Com a LG Chem fora do mercado por força maior, a oferta disponível encolheu de forma abrupta, sem alternativas imediatas em escala suficiente.

O episódio é comparável, em intensidade, às disrupções vividas durante a pandemia de Covid-19, mas com uma diferença estrutural relevante: sua origem é geopolítica, o que lhe confere potencial de duração mais prolongado e menos previsível. A indústria de personal care enfrenta agora a pressão por uma revisão mais profunda do modelo de abastecimento, com diversificação de fornecedores e regionalização da cadeia como caminhos mais citados, tanto de terceira quanto de quarta geração de produtos.

“Com um item a menos, paramos uma linha inteira”, resume Soyama. A frase sintetiza o que a crise do SAP torna evidente: em cadeias de alta dependência e baixa redundância, um único ponto de falha é suficiente para comprometer toda a operação.

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