Kimberly-Clark prepara concessões à UE para destravar aquisição de US$ 40 bilhões da Kenvue
Decisão europeia pode influenciar os próximos passos da operação e seus desdobramentos no mercado de cuidados pessoais
A Kimberly-Clark está preparando um pacote de concessões para responder às preocupações antitruste da Comissão Europeia sobre sua aquisição da Kenvue, negócio avaliado em US$ 40 bilhões, segundo fontes ouvidas pela Reuters. A Comissão deve notificar formalmente a fabricante de Huggies e Kleenex sobre suas objeções ainda esta semana, após uma revisão preliminar da operação anunciada em novembro de 2025.
A União Europeia é a etapa mais exigente até agora de um processo de aprovação que já avançou em outras frentes. No início do mês, a Comissão Australiana de Concorrência e Consumo (ACCC) liberou o negócio sob condição: a Kimberly-Clark terá de vender as marcas de absorventes Carefree e Stayfree no país a um comprador aprovado pelo regulador, que identificou risco de concentração excessiva no mercado local de cuidados femininos, hoje dividido entre três fornecedores principais. Um mês antes, a operação já havia recebido aprovação condicional na África do Sul.
O apetite regulatório pela operação decorre do seu escopo. Ao incorporar a Kenvue, a Kimberly-Clark passa a controlar marcas como Listerine, Aveeno e Neutrogena, mas também herda os passivos judiciais ligados ao Tylenol que acompanham a companhia. O padrão que vem se repetindo nas aprovações condicionais — desinvestimento pontual em categorias de sobreposição direta, sobretudo em femcare — é o sinal mais forte de como a Comissão Europeia deve tratar o caso.
Para a América Latina, o desfecho na Europa tem relevância direta. Em agosto, a Essity fechou acordo para comprar o negócio de cuidados femininos da Kenvue no Brasil — as marcas Sempre Livre, Carefree e o.b. — por US$ 284 milhões. O fechamento dessa transação está condicionado à conclusão da fusão global entre Kimberly-Clark e Kenvue, hoje prevista para o segundo trimestre de 2027. Ou seja, cada aprovação regulatória obtida pela Kimberly-Clark mundo afora aproxima também a mudança de controle acionário do femcare brasileiro, com efeito direto sobre concorrência, portfólio de marcas e estratégia comercial no varejo e nas farmácias do país.
O CADE ainda não se manifestou sobre a operação Essity–Kenvue Brasil, que só deve ser formalmente submetida à análise brasileira à medida que a fusão global avança. O precedente da Austrália, desinvestimento cirúrgico em vez de bloqueio, é o cenário mais provável também para a União Europeia, e deve funcionar como referência para eventuais exigências de autoridades antitruste latino-americanas caso o negócio produza sobreposições relevantes na região.









