Em Honduras, o acesso a produtos de gestão menstrual ainda enfrenta uma série de barreiras que vão além do custo. O estigma social, a desinformação e a negligência do poder público contribuem para manter a saúde menstrual como um tema invisível e, consequentemente, ignorado pelas políticas públicas.
De acordo com levantamento realizado pelo portal Criterio.hn, a oferta de itens como coletores menstruais, absorventes reutilizáveis e até mesmo tampões é extremamente limitada no mercado, sobretudo fora da capital Tegucigalpa. Nas farmácias e supermercados pesquisados, predominam os absorventes descartáveis – enquanto produtos sustentáveis ou alternativos são raros, caros ou sequer conhecidos por parte da população.
ALTA NOS PREÇOS E ESCASSEZ DE OPÇÕES
O mapeamento mostrou que coletores menstruais, como o da marca Diva Cup, podem custar até L954 (aproximadamente US$ 36,50) – um valor proibitivo para a maior parte da população hondurenha. Tampões, disponíveis apenas em algumas redes de farmácias, variam entre L78 e L128 (US$ 2,99 a US$ 4,91), enquanto em muitos estabelecimentos simplesmente não há estoque nem previsão de reposição.
Em redes como Farmacias del Ahorro e Kielsa, por exemplo, funcionários relataram que é “muito raro” alguém procurar por esses produtos, evidenciando como o desconhecimento e o estigma moldam até mesmo a dinâmica de oferta no varejo.
FALTA DE INFORMAÇÃO E TABUS PERSISTEM
Durante um evento promovido por organizações de direitos humanos no marco do Dia Internacional da Higiene Menstrual, mulheres e adolescentes relataram desconhecer a existência de diversos produtos de cuidado íntimo, como absorventes reutilizáveis e coletores. A maioria das participantes era de regiões periféricas de Tegucigalpa e Comayagüela.
As falas evidenciam um problema estrutural: a ausência de campanhas educativas e a perpetuação de tabus culturais que silenciam o debate sobre menstruação e sexualidade.
PROJETO DE LEI PARADO NO CONGRESSO
Para tentar mudar esse cenário, a deputada Johana Bermúdez, do Partido Nacional, apresentou em 2022 a “Ley Rosa”, que propõe a isenção de impostos para produtos de gestão menstrual e sua inclusão na cesta básica.
Apesar de já contar com pareceres favoráveis da Secretaria de Finanças e do Serviço de Administração de Rendas, o projeto ainda não foi debatido em plenário. Segundo a deputada, isso se deve à “falta de vontade política” tanto do Legislativo quanto do Executivo.
Bermúdez afirma que dificilmente a proposta será aprovada durante a atual legislatura e espera que, com a troca de governo, o tema volte à pauta.
PRODUTOS DEVERIAM SER GRATUITOS, DEFENDE ESPECIALISTA
Para a médica Giselle Martínez, especialista em saúde sexual e reprodutiva, o Estado hondurenho tem a responsabilidade de garantir o acesso gratuito a produtos menstruais, assim como já faz com preservativos.
Ela defende ainda a inclusão desses itens no quadro básico de medicamentos e sugere a produção nacional de absorventes reutilizáveis como alternativa sustentável e geradora de renda para mulheres – desde que acompanhada de educação sobre higiene adequada.



