A Unicharm, fabricante japonesa de produtos de higiene, desenvolveu um processo inédito de reciclagem que transforma fraldas descartáveis usadas em novas fraldas. O projeto está em fase de testes em dois municípios do país e representa um avanço significativo para a gestão de resíduos sólidos no setor de personal care.
O processo consiste no recolhimento, trituração, lavagem e separação dos materiais que compõem a fralda: celulose, plástico e polímero superabsorvente (SAP). A celulose passa por um tratamento especial com ozônio para esterilização, branqueamento e desodorização, sendo então reaproveitada na fabricação de novos produtos absorventes.
A parceria com os municípios de Shibushi e Osaki já gerou resultados concretos: desde abril de 2024, as duas cidades passaram a separar fraldas usadas na coleta de lixo, e até setembro do mesmo ano, cerca de 98 toneladas métricas de resíduos de higiene foram recicladas. O material processado pela Unicharm foi enviado à fabricante Poppy Paper, que o combinou com papel reciclado para produzir o Shibushi Osaki Roll, o primeiro papel higiênico do mundo feito a partir de fraldas descartáveis recicladas, já disponível em lojas das regiões de Kagoshima e Miyazaki.
MERCADO ADULTO IMPULSIONA A DEMANDA
O projeto surge em um contexto demográfico relevante. O Japão, país com quase 100 mil pessoas acima de 100 anos, já produz mais fraldas para adultos do que para bebês. Em 2024, foram fabricadas 9,6 bilhões de unidades de fraldas e absorventes para incontinência adulta, contra 8 bilhões destinados a crianças, segundo a Japan Hygiene Products Industry Association.
A projeção é de que o país descarte 2,6 milhões de toneladas métricas de fraldas sujas por ano até 2030 — ante os cerca de 2,2 milhões registrados em 2020. Nesse cenário, a participação desse resíduo no lixo doméstico japonês deve passar de 5,2% para 7,1% no mesmo período.
“A demanda por fraldas infantis está diminuindo. Mas um número crescente de idosos usa fraldas e, mais recentemente, até mesmo animais de estimação também”, afirmou Takahisa Takahara, presidente da Unicharm e responsável pela nova iniciativa. “Se conseguirmos transformar o sentimento de culpa que os consumidores comuns podem sentir ao usar produtos descartáveis em algo positivo e tornar o uso de produtos reciclados a norma na sociedade, isso se tornará economicamente viável”, complementou.
MUNICÍPIOS PIONEIROS E METAS PARA 2035
Os testes estão sendo conduzidos nas localidades de Shibushi e Osaki, na Prefeitura de Kagoshima, que reciclam 80% dos resíduos domésticos — quatro vezes a média japonesa. As duas cidades, com cerca de 40 mil habitantes, adotaram uma política radical de gestão de resíduos há 25 anos para evitar o esgotamento do aterro local, previsto para 2004. Com isso, o aterro terá vida útil estendida por mais quatro décadas.
Atualmente, os produtos reciclados pela Unicharm são vendidos em alguns estabelecimentos locais, com preço cerca de 10% acima dos similares produzidos com matéria-prima virgem, e distribuídos para centros de cuidado infantil e de idosos selecionados.
Para viabilizar a expansão do modelo em larga escala, a Unicharm também desenvolveu o chamado Método de Lavagem a Seco, que reduz em até 50 vezes o consumo de água em comparação aos processos convencionais. A tecnologia, parte do projeto RefF (Recycling for the Future), iniciado em 2010 com foco em reciclagem horizontal, abre caminho para a reciclagem de fraldas em regiões com escassez hídrica. A previsão é iniciar o desenvolvimento técnico do método em 2026, construir uma planta em grande escala em 2028 e colocá-la em operação em 2029.
Até lá, a meta da Unicharm é ampliar o processo para incluir também o plástico e o polímero superabsorvente das fraldas usadas até 2028, e firmar parcerias com 20 municípios até 2035. O governo japonês, por sua vez, estabeleceu como objetivo que ao menos 100 dos mais de 1.700 municípios do país iniciem programas de reciclagem de fraldas até 2030.
O avanço da Unicharm chega em um momento em que o Japão enfrenta um dos seus maiores desafios ambientais ligados ao envelhecimento populacional. Com uma taxa de reciclagem de resíduos municipais abaixo de 20% — bem distante dos 67% da Alemanha e dos 44% do Reino Unido —, iniciativas como essa apontam um caminho para que a indústria de personal care contribua de forma concreta para a redução do impacto ambiental gerado por produtos descartáveis.









